Carta número 1

Ainda estou com raiva de você. Esse sentimento é tão pequeno dentro de mim, que as vezes esqueci que ele está ali, mas ele aparece como um desconforto, toda vez que sinto sua falta. Talvez seja mais raiva de mim mesma, por ter deixado chegar a esse ponto. Lembro de ter sentido isso quando percebi que estava me apaixonando por você, mas na época essa raiva de mim mesma era forte, quase insuportável. Agora que não é mais paixão mas sim amor, a raiva é como uma dor de cabeça, que continua ali, mas nos distraímos e acabamos sentindo só um encômodo. 
Mesmo com a raiva, ainda sinto sua falta, sinto falta de quando eu acreditava em cada uma de suas palavras, que espera suas promessas se tornarem nossa história, sinto falta do seu toque, tô seu calor, do seu coração, dos seus olhos, do seu cheiro, do seu beijo, dos seus braços, pernas e mãos. Sinto falta da sua voz no meu ouvido, e do seu sorriso. Sinto falta de tanto mais. 
Mas toda vez que essa saudade começa a doer, a raiva aparece. Me traz a lembrança da sua voz no telefone, fria, quase parecia estar sorrindo, dizendo que sentia muito por ter me machucado, e por estar tendo que me bloquear. Sinto raiva porque sei que tinha uma escolha dessa vez, como em todas as outras, e não me escolheu, de novo. 
Raiva porque mentiu, não pra qualquer pessoa, mas pra mim. Sinto raiva porque me prometeu um pedido de desculpas e ainda me deve isso. Sinto raiva porque realmente desejo que seja feliz com todo meu coração, porque mesmo agora não consigo te odiar. 
Mesmo agora que tocou ela, como me tocou, na mesma cama, talvez com o mesmo sentimento, só uma semana depois. Sinto nojo, e raiva. Mas não consigo te odiar por isso 
Sinto raiva de mim mesma. Por não ter sido o suficiente. Por não ter conhecido sua mãe quando me convidou, por não ter contado pros meus pais quando tive a oportunidade, por não ter te ajudado mais a estudar, por ter insistido demais naquela noite, por ter ficado triste com a sua tristeza, talvez por não ter dado o devido apoio quando estava preocupada. Por não ser o suficiente. Por te amar demais. Por você não conseguir me amar. Por acreditar ainda que as verdades são mentiras e as mentiras são verdades. 
Sinto raiva de estar escrevendo essa carta que não vou enviar, quando queria estar te contando tudo pessoalmente. 
Tenho muita raiva dentro de mim, mas ela se esconde no corpo de uma formiguinha dentro da minha mente. Um dia, sei que essa formiga vai sumir. Toda essa raiva que me impede de me arrastar até você e implorar que volte, vai desaparecer. E é disso que mais tenho raiva. 

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